Dicas e truques para a pesquisa em saúde na LatAm
Publicado originalmente na EphMRA, junho de 2019
A América Latina é uma região diversa, que inclui 20 países independentes além de muitas outras jurisdições menores, sendo o espanhol e o português os idiomas dominantes. Sua população de mais de 600 milhões de habitantes representa 9% da população mundial.
O número de médicos que vivem nesta região ultrapassa um milhão de prescritores de medicamentos e seu gasto em saúde é estimado em mais de 400 bilhões de USD. (1)
Além disso, se considerarmos a LATAM como um único território — como costuma ser simplificado de fora —, esse gasto a tornaria o 4º maior mercado depois dos EUA, China e Japão, e surpreendentemente maior do que certos mercados individuais desenvolvidos, como Alemanha, Reino Unido ou França.
Por sua vez, segundo os mesmos dados, o Brasil, que se posiciona globalmente como o 7º maior mercado, representa 50% do negócio da LATAM; e, incluindo México, Colômbia, Argentina e Chile, cobre-se 5/6 do total do gasto em saúde regional.
Além do seu tamanho, a tendência de crescimento também é bastante forte. Os mesmos dados da OMS mostram um robusto aumento do gasto em saúde de quase 7% ao ano, entre os anos 2000 e 2016, o que resultou em uma impressionante triplicação dessa receita!
O investimento em pesquisa, no entanto, está um pouco atrás dessa tendência. O último relatório ESOMAR Global Market Research estima que a região da LATAM representa apenas 3% do faturamento global.(2)
Embora não haja dados confiáveis disponíveis especificamente para a pesquisa em saúde, nossas próprias estimativas sugerem um número semelhante.
Portanto, essa inconsistência provavelmente esconde uma grande oportunidade de mercado e, mais cedo ou mais tarde, os orçamentos de market intelligence se alinharão mais de perto, não apenas ao “potencial futuro” da LATAM, mas também à dimensão do tamanho real do seu mercado.
A boa notícia é que os métodos de pesquisa usados em nível mundial geralmente funcionam bem na LATAM e praticamente todos os targets, como médicos, enfermeiros, pacientes ou até pagadores, são acessíveis. Para projetos qualitativos, em geral as IDIs ou TDIs podem ser realizadas de forma semelhante à Europa, embora seja aconselhável conduzi-las nos idiomas locais pertinentes.
A pesquisa qualitativa digital, como as comunidades online, também está começando a surgir. A pesquisa online é geralmente bem aceita. Com base em nossos dados internos, sabemos que cerca de 10% dos médicos dos principais mercados (ou seja, Brasil, México, Colômbia e Argentina) participaram de alguma de nossas pesquisas, mas a situação pode ser mais complicada em mercados menores, como Chile, Peru ou América Central, nos quais os universos reduzidos implicam a necessidade de extensas entrevistas ad hoc e até presenciais.
Recentemente publicamos “Future of Healthcare in Latin America”, (3) um estudo prospectivo de grande escala que mostra que os médicos costumam ser críticos severos de seus próprios sistemas no Brasil, Colômbia e México, enquanto argentinos e chilenos apresentaram visões mais moderadas.
As principais diferenças em relação aos seus pares dos EUA não estão tanto nas percepções sobre a qualidade das clínicas privadas ou dos planos de saúde (nos quais as avaliações são semelhantes e relativamente positivas), mas sim na avaliação da cobertura de saúde em geral e, mais especificamente, na qualidade dos hospitais públicos.
Segundo os médicos da LATAM, os obstáculos mais severos que os pacientes enfrentam, e que afetam a maioria da população, são:
• Acesso limitado aos medicamentos devido aos altos custos e/ou às barreiras burocráticas de acesso;
• Falta de aprovação de fármacos que seriam a melhor opção de tratamento;
• Falta de equipamentos e materiais disponíveis;
• Tempo limitado disponível para uma consulta adequada e difícil acesso a especialistas.
Pensando em suas perspectivas, no lado positivo, os médicos imaginam um futuro liderado positivamente pela melhoria tecnológica e por pacientes mais bem informados. No lado negativo, preveem um acesso ainda mais restrito aos tratamentos e que o papel do médico será cada vez mais questionado no processo de atenção à saúde.
Além disso, temem sentir uma queda no respeito, na remuneração e nas condições de trabalho. As tecnologias que os médicos anticipam que terão o impacto mais significativo neste suposto futuro são os medicamentos preventivos, as novas vacinas, a imunoterapia, o uso de fármacos ajustados geneticamente, a engenharia genética e os biológicos.
Assim, embora existam sem dúvida algumas tensões no cenário de saúde desta região diversa, a América Latina apresenta-se como uma área de crescimento sólido com perspectivas positivas tanto para os profissionais de marketing farmacêutico quanto para os pesquisadores. Aqueles que conseguirem obter uma compreensão profunda da região — investindo em ferramentas de pesquisa amplamente acessíveis — e oferecer soluções de negócio eficazes estarão mais bem preparados para aproveitar essas oportunidades.
Diego Casaravilla é CEO da Fine Research, uma agência especializada em pesquisa qualitativa em saúde e coleta de dados online, com operações próprias no Brasil, México, Chile, Colômbia, Argentina e Uruguai.
1.WHO. (2019). Global Health Expenditure Database. http://apps.who.int/nha/ database/ViewData/Indicators/en
2. ESOMAR. (2018). Global Market Research 2018: An ESOMAR Industry Report. Amsterdam: ESOMAR, pp. 10
3. Fine Research. (2018). Future of Healthcare in Latin America. Full report available: https://www.fine-research.com/blog/news
ENGLISH +1 (315) 215-0656 | PORT, ++55 11 96692-1935 | ESP ++54 11 4896 4180